lunes, 4 de noviembre de 2013

Direto para baixo

Com cordas, mas sem GPS, australianos destemidos mergulham nos cânions secretos das montanhas Azuis

por Mark Jenkins
 
Os suíços têm montanhas, e por isso escalam. Os canadenses têm lagos, e então remam. Os australianos têm cânions, e se aventuram neles em uma forma híbrida de loucura – uma mistura de montanhismo com exploração de cavernas, na qual se vai sempre para baixo, seguindo um rio, muitas vezes dentro de túneis úmidos e passagens claustrofóbicas. Ao contrário de outros destinos com cânions estreitos, cavados pela água nas rochas, como em Utah ou na Jordânia, a Austrália tem uma herança rica e profunda dessa experiência, o canyoning, ou canionismo.
De certa forma, é uma maneira extrema de bushwalking, a travessia de regiões inóspitas que era hábito dos aborígines, e algo que eles faziam milhares de anos antes da chegada dos europeus. Entretanto, sem cordas nem equipamentos, os nativos não podiam explorar as fendas mais profundas.
Nos dias atuais, milhares de australianos exploram os abismos, descendo por eles com cordas. Mas apenas um punhado de malucos explora cânions selvagens. Esses indivíduos determinados tendem a ter pernas de jogador de rúgbi, joelhos cheios de cicatrizes e arranhões, tolerância de pinguim à água gélida, habilidade de canguru para pular de rocha em rocha e disposição de marsupial para rastejar na umidade. Preferem usar tênis de lona com sola de borracha, shorts esfarrapados, perneiras rasgadas e camisetas de algodão barato. Acampam ao lado de pequenas fogueiras e fazem jaffles para o café da manhã. Jaffles, diga-se, são sanduíches com todo tipo de ingrediente – inclusive Vegemite, um extrato de levedura de sabor peculiar – preparados em um tipo de tostadeira.
Muito além de desafiar o próprio paladar, contudo, o que esses aventureiros querem é testar seus limites nos cânions remotos e de difícil acesso. “Quanto mais escuro, estreito e tortuoso, melhor”, diz Dave Noble, um dos experientes exploradores de cânions do país. “As pessoas me perguntam: ‘E se você ficar preso lá’? Acontece que é exatamente isso que buscamos: sermos forçados a improvisar para poder escapar.”
Nos últimos 38 anos, Noble fez 70 descidas pioneiras nas montanhas Azuis, a apenas algumas horas de carro a oeste de Sydney. Essa região sulcada tem centenas de cânions com fendas. As “Blueys”, contudo, não são montanhas e sim um platô sedimentar entalhado pela erosão de rios e acarpetado por eucaliptos.
Noble, de 57 anos, é um sujeito nada convencional. Nunca dirigiu um carro. Ele pedala em média 30 quilômetros por dia pelos subúrbios de Sydney para ensinar física em um colégio. Embora tenha desenhado mapas cheios de anotações de cânions que explorou e batizou – com nomes sugestivos como Canibal, Cripta Negra, Crucificação e Ressurreição – e postado fotos em seu site, ele não conta a ninguém onde esses tesouros se localizam. Nem sequer me deixa dar uma boa olhada nos mapas. “É a nossa ética”, diz ele. “Os cânions selvagens devem ser mantidos sem descrição para que permaneçam puros e outros possam ter o desafio de explorá-los por si mesmos. Isso é parte do mistério.”
Seu principal oponente na atividade é Rick Jamieson, que conquistou a desaprovação de Noble há alguns anos ao revelar alguns desses segredos da geografia local. Há dez anos, Jamieson, também um professor de física, levou-me à primeira descida completa de dois cânions, o Bennett Gully e o Orongo. Um homem enorme, corpulento e bem-humorado, ele, aos 70 anos, ainda explora os cânions e continua rindo. “Fantástico!”, exclama, com seu pronunciado sotaque australiano, quando saímos uma noite para tomar uma cerveja. “Temos a sorte de esses GPS não funcionarem nos cânions. Isso mantém a aventura.”

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“É como ser engolido pela terra”, diz o fotógrafo Carsten Peter para explicar o Buraco Negro de Calcutá no cânion Claustral. Canionistas experientes o evitam depois de chuvas fortes. Foto: Carsten Peter

Um homem desce uma queda-d’água de 45 metros. Para sair dali agora, não lhe resta opção a não ser fazer rapel, escalar e nadar até o fundo do cânion. Foto: Carsten Peter

Cascatas de samambaias vicejam entre as paredes do cânion Claustral. Explorado pela primeira vez em 1963, o lugar foi assim batizado por suas passagens que induzem à claustrofobia. Foto: Carsten Peter

Canionistas abrem caminho através de uma floresta de sassafrás em direção ao cânion Claustral. Localizar o ponto de entrada de uma formação dessas pode levar horas de caminhada. Um canionista carrega em média 9 quilos de equipamento, incluindo corda, roupa de mergulho, comida e primeiros socorros. Foto: Carsten Peter

O autor Mark Jenkins faz uma de 14 descidas por corda no desfiladeiro Kanangra. Foto: Carsten Peter

A recompensa de Mark Jenkins? Vistas como esta, de uma das rochas do desfiladeiro Kanangra. Foto: Carsten Peter

Um lagostim de 30 centímetros se esquiva de um trilheiro no cânion Claustral. A cor dos crustáceos, chamados de yabbies pelos canionistas, é um mistério. Em alguns riachos, eles são laranja; em outros, azuis. A diferença se deve em parte à qualidade da água – os azuis estão em águas mais limpas. Foto: Carsten Peter

Um canionista suporta o dilúvio da queda no cânion Empress. Eles dizem que mesmo um rapel fácil como este pode dar a sensação de afogamento em pleno ar. Foto: Carsten Peter

Raios de sol do meio do dia intensificam a atmosfera de catedral no cânion. Foto: Carsten Peter

David Forbes fica de olho nas serpentes, já que o cânion Tiger Snake foi assim batizado por causa delas. Foto: Carsten Peter

O experiente guia John Robens, à esquerda, lidera uma equipe por uma passagem coberta de limo no cânion Claustral. “O canionismo tem tudo a ver com o inesperado da descoberta”, diz ele. “Você caminha quilômetros e de repente depara com um lugar mágico.” Foto: Carsten Peter

Uma constelação de larvas luminescentes brilha em pedras e samambaias no cânion Claustral como parte de uma estratégia para atrair presas. Foto: Carsten Peter

Um canionista se esforça para sair de baixo de uma das várias cachoeiras do cânion Claustral. Foto: Carsten Peter

Para atravessar uma lagoa tingida pelo tanino no cânion Rocky Creek, um canionista submerge até o peito. Foto: Carsten Peter

O escarpado vale Wolgan, nas montanhas Greater Blue, bem pertinho de Sydney, têm locais muito disputados pelos canionistas. Foto: Carsten Peter

Um canionista explora o cânion Freshwater Creek. Foto: Carsten Peter

A primeira exploração das passagens labirínticas de arenito do cânion Thunder por um grupo de canionistas em 1960 deu impulso à popularidade do esporte. Foto: Carsten Peter

Um canionista desce pelo cânion Hole-in-the-Wall Canyon no parque nacional Blue Mountains. Foto: Carsten Peter

 
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