lunes, 4 de noviembre de 2013

Antártica radical

Uma escalada em agulhas de pedra na vastidão de gelo

por Freddie Wilkinson
 
 
O estrondo lá fora parece mais um terremoto do que o vento. Instintivamente me encolho todo no saco de dormir. Já enfrentei vendavais terríveis antes. O rugido da corrente de jato no alto do Himalaia à noite, o uivo medonho de uma tempestade na Patagônia. Mas esse é pior.
O chão treme com o pé de vento que se aproxima. Minha barraca está amarrada entre dois penedos em uma vastidão desolada nos confins dos montes Wohlthat, no meio da Antártica. Meus três companheiros acampam perto daqui. A 8 quilômetros, ao sul, fica a orla do planalto Polar, a imensidão congelada que domina o interior do continente. Aqui a geografia e a gravidade se combinam e desencadeiam fortíssimos ventos catabáticos – densas ondas de ar gelado que desembestam pelos corredores das montanhas como avalanches em direção ao mar.
Chega a próxima rajada. Os mastros da barraca vergam para dentro, e o tecido acima do meu saco de dormir afunda. Por um momento, percebo o metralhar de costuras rebentando. De repente, estou girando, voando, virado de cabeça para baixo. Ainda na barraca, o vento me apanha e me atira contra uma tosca parede de pedras que construí como proteção, depois me joga por cima dela. Livros, equipamento de fotografia e meias usadas voam para todos os lados. Plumas do saco de dormir flutuam em volta.
Sinto um formigamento tomar conta do meu pescoço e dos ombros. Tento me recuperar, rastejo na direção de um rasgo na barraca, agarro o tecido e aumento o buraco. Farpas de areia e neve espetam meus olhos quando ponho a cabeça lá fora e grito naquela balbúrdia. “Socorro!”
VIR PARA A ANTÁRTICA foi ideia de Mike Libecki. Metade surfista “paz e amor” da Califórnia, metade aventureiro radical, o americano Libecki, 40 anos, já foi o protagonista de dezenas de primeiras ascensões em picos em todo o planeta. Alto, de fala mansa e cabelos louros raiados de branco, ele projeta uma energia incansável e positiva. “Já estive lá”, ele disse, referindo-se à região conhecida como Terra da Rainha Maud, onde apenas cientistas costumam se arriscar. “Tenho as chaves do castelo.” Libecki recrutou então uma dupla de experientes fotógrafos montanhistas para vir conosco: o sobrancelhudo Keith Ladzinski, do Colorado, e Cory Richards, um nativo do Utah, de sorriso endiabrado.


O penedo é uma proteção pequena na cadeia de montanhas Westliche Petermann. Os membros da equipe usaram esquis para ancorar as barracas, mas a ventania furiosa as arrancou e chegou até a virá-las com os ocupantes dentro, enquanto as nevascas engoliam o equipamento. Foto: Cory Richards

Libecki descansa em uma nevasca, com curativos sobre a pele ferida pelo frio. “Imagine você viver no seu freezer por um mês”, ele compara. Foto: Cory Richards

Ofuscante como uma tempestade de areia, um vendaval varre a imensidão com neve e gelo. Partes desta região são tão secas que alguns a chamam de deserto gelado. Foto: Cory Richards

Um membro do grupo (embaixo, à extrema direita) se aproxima da torre Bertha. Durante a subida, os escaladores seguiram pela nítida divisão entre sol e sombra. Foto: keith ladzinski

Rochas soltas e ventos gelados retardaram a ascensão de uma agulha de 600 metros de altura, que os escaladores batizaram de torre Bertha. Levaram dez dias para subir. Foto: Cory Richards

O penedo é uma proteção pequena na cadeia de montanhas Westliche Petermann. Os membros da equipe usaram esquis para ancorar as barracas, mas a ventania furiosa as arrancou e chegou até a virá-las com os ocupantes dentro, enquanto as nevascas engoliam o equipamento. Foto: Cory Richards

Sob o horizonte vazio, o grupo passa, esmigalhando, o gelo glacial azul, que pode ter milhares de anos. “Era como andar em um mar congelado”, descreve o fotógrafo Cory Richards. Foto: Cory Richards

Depois de aterrissar em uma pista de gelo azul duro, um enorme jato Ilyushin IL-76 despeja cientistas, aventureiros e fornecedores na estação de pesquisas de Novolazarevskaya. Daqui o grupo de escaladores seguirá para as montanhas em um avião menor. Foto: Cory Richards

Cento e oitenta metros parede acima na Torre Bertha, Mike Libecki instala equipamento em uma fenda para fixar uma corda. A rocha solta e farelenta foi uma preocupação constante dos escaladores, estorvando a subida ao ceder sob o peso dos homens ou soltar-se sob seus dedos. Foto: Cory Richards

Contêineres de navio convertidos acolhem os recém-chegados à estação russa. Rústicos e relativamente baratos, os contêineres são usados como laboratório, alojamento e depósito. Foto: Cory Richards

Freddie Wilkinson (no saco de dormir) e Mike Libecki tentam se manter aquecidos em uma saliência de rocha a quase 400 metros do chão durante a escalada da Torre Bertha. Os homens passaram quatro noites aqui, voltando depois de cada dia de escalada. Foto: Cory Richards

Membros da expedição transpõem uma duna de neve esculpida pelo vento com um panorama de gelo azul-vivo ao fundo. Quando não podiam esquiar, eles usavam cranpons para andar. Também tentaram velejar em terreno plano, esquiando puxados por um kite. Mas os furiosos ventos antárticos levaram o kite embora. Foto: Cory Richards

Um vasto trecho de gelo e pedras domina o panorama visto do topo de um pico de 600 metros de granito, que o grupo apelidou de Torre Bertha. Foto: Cory Richards

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