martes, 4 de junio de 2013

Velejar nas dunas

por George Steinmetz


Foi em 1998, durante uma expedição ao Saara, que tive minha primeira lição sobre a física das dunas de areia. Interessado em fazer fotos de altitude nessa região remota, aprendi a voar em um paraglider motorizado, um dos veículos aéreos mais leves e lentos que existem. Ele pesa pouco menos de 45 quilos e alcança a velocidade máxima de 50 quilômetros por hora. E não tem rodas.
Acabei aperfeiçoando a habilidade nova de voar (e pousar) com o paraglider. Mas não me ocorreu que também teria de aprender outra coisa para sobreviver no Saara: a capacidade de ler as dunas de areia. Assim como um marinheiro fica de olho na espuma na crista das ondas para não ser surpreendido por uma súbita ventania, tive de aprender a sondar as invisíveis e perigosas correntes de ar que criavam os montes de areia.
O deserto do Saara está repleto de intermináveis fileiras de dunas conhecidas como barcanas. Esse termo significa “duna em forma de crescente” nas línguas turcomanas do Leste Europeu e da Ásia Central e Setentrional. As barcanas despertaram minha curiosidade quando li um livro de Ralph Bagnold, um oficial do Exército britânico, que foi um dos primeiros a cruzar o deserto líbio em veículos motorizados, nas décadas de 1920 e 30. Bagnold descreve tais dunas como estruturas dotadas de vida, que se deslocam, se multiplicam, preservam o formato e se adaptam ao ambiente. Assim me inspirei a tentar fotografá-las do céu.
Viajei à África com o francês Alain Arnoux, um campeão de paragliding motorizado, que me treinaria para voar com o mínimo de segurança. Para alcançar as barcanas, passamos quatro dias sacolejando em um veículo 4x4, partindo de Ndjamena, a capital do Chade, rumo ao norte. A areia das dunas também havia viajado, migrando para oeste desde o Egito e o Sudão. Nos orientamos por um velho mapa francês que indicava as formações por sinais ortográficos de fechamento de parênteses, todos virados para o vento.

Eu não fazia ideia das dificuldades que nos esperavam. Tampouco me dava conta do grau de atração das dunas. Fiquei tão fascinado que desenvolvi um projeto de 15 anos para fotografar os desertos mais rigorosos do planeta.


Foto: George Steinmetz 

Dasht-E Lut • Irã O francês Alain Arnoux conduz seu paraglider motorizado em meio a ventos traiçoeiros acima de uma enorme duna no deserto de Lut, no Irã. Campeão nessa modalidade de voo, Arnoux colaborou com o fotógrafo George Steinmetz em mais de uma dúzia de expedições

Foto: George Steinmetz 

Rub al Khali • Arábia Saudita Dunas jovens se desenham como caligrafia no Rub al Khali, Quarto Vazio em árabe. Avultando-se acima delas, uma duna-estrela, devido a seu tamanho, provavelmente vai passar décadas no mesmo local

Foto: George Steinmetz 

Litoral do Pacífico • Peru Fortes ventos do sul modelam a geografia de uma remota praia. As ondas do Pacífico levam quantias imensas de areia, essenciais para a formação das dunas

Foto: George Steinmetz 

Badain Jaran • China Lagos improváveis, brilhantes como pedras preciosas, aninham-se entre dunas-estrela de mais de 300 metros de altura em um deserto onde pastores de cabras e carneiros mongóis vivem. Eles dependem das nascentes que alimentas estes lagos salgados

Foto: George Steinmetz 

Litoral do Pacífico • Peru “Barchan” é a palavra turca para uma duna em forma de meia-lua que se encontra nos limites de mares de areia e se forma quando o vento sopra continuamente de uma mesma direção

Foto: George Steinmetz 

Saara • Chade As seifs alongadas e com cristas finas, que receberam como nome a palavra árabe para “espada”, tomam forma em regiões com areia moderada e ventos irregulares

Foto: George Steinmetz 

Rub al Khali • Arábia Saudita Ventos que mudam de acordo com a estação criam dunas-estrela, com várias camadas, em forma de pirâmide. Crescendo mais para cima do que para os lados, podem se erguer a mais de 300 metros

Foto: George Steinmetz 

Uádi Hazar • Iêmen Dunas parecem estar desmoronando em um enigmático fenômeno no Quadrante Vazio ienemita. Mudanças no regime dos ventos talvez expliquem este redesenho do deserto

Foto: George Steinmetz 

Saara • Argélia Moradores de um oásis perto de Timimoun usam folhas de palmeira para proteger os jardins da areia em movimento, que se acumula perto da cerca quando sopra o vento

Foto: George Steinmetz 

Deserto da Namíbia • Namíbia A areia invadiu Komanskop, vilarejo ligado à mineração de diamantes e abandonado na década de 1950. As ruínas estão no caminho de um fluxo ativo de areia

Foto: George Steinmetz 

Saara • Mauritânia Percorrendo uma rota de caravanas, turistas sobre camelos ziguezagueiam pelas dunas. Tempestades deslocam as areias com regularidade, assegurando vistas sempre diversas

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...