miércoles, 22 de mayo de 2013

David Doubilet: até as profundezas


O mais respeitado fotojornalista subaquático de todos os tempos, David Doubilet fala da sua paixão pelo seu trabalho.



Recentemente me indagaram sobre quando ocorreu o meu “momento baleia” – ou seja, quando deixei de ser um mamífero terrestre e me tornei uma criatura anfíbia com uma câmera na mão. A primeira vez em que de fato molhei os pés não resultou de nenhum grande espírito aventureiro, mas do fato de eu ser um menino tímido e curioso com 9 anos de idade. No lago Augur, em Nova York, meus orientadores no acampamento de verão tiveram de lidar com um garoto estranho que sofria de asma e não se misturava com os outros. Por isso, eles me deram uma máscara de mergulho e sugeriram que eu fosse até o lago e retirasse os galhos acumulados sob um cais, lembrando-me de que seria bom se voltasse à superfície de vez em quando para respirar. Mergulhei em um turvo e esverdeado mundo mágico. Vi percas-sóis e lúcios escondidos entre juncos, assim como uma aranha-pescadora gigante que me deixou apavorado. Passei horas ali explorando e até me esqueci de que deveria retirar os tais galhos.
Logo depois, conheci o meu herói, Jacques Cousteau, em Manhattan, por ocasião da estreia de O Mundo do Silêncio, que ganhou o Oscar de melhor documentário. Ao aproveitar os recursos do cinema paramostrar as profundezas do mar, o filme me deixou fascinado. Contei a Cousteau que desejava ser fotógrafo submarino. Ele sorriu e, dando de ombros à maneira francesa, me disse: “Por que não? Vá em frente!”
Minha família tinha duas casas: uma em Manhattan, onde a gente não está longe de um rio, e outra, para as férias, em Elberon, Nova Jersey, perto do mar. Depois daquela primeira incursão subaquática, eu passava os dias de verão a explorar as águas verde-escuras do Atlântico. Quando fiz 12 anos, ganhei uma câmera Brownie Hawkeyede meu pai. Impermeabilizamos a Brownie com um saco de plástico e a prendemos no interior de uma velha máscara de mergulho. Essa foi a minha primeira câmera submarina. Os primeiros resultados foram pavorosos, mas não perdi o entusiasmo.
Ainda adolescente, tornei-me assistente no Laboratório Marinhode Sandy Hook, na costa da Nova Jersey. Junto com os cientistas, mergulhava em um local conhecido como “zona ácida”, onde era lançada boa parte dos rejeitos industriais de Nova York e Nova Jersey. Essa experiência evidenciou que o rigor da ciência não era páreo para minha predileção pela fotografia. Decidi então estudar comunicações na Universidade de Boston, mas também passei boa parte do tempo na outra margem do rio com amigos do Massachusetts Institute of Technology. Um deles era o doutor Harold Edgerton, o lendário inventor do flash estroboscópico. Nossas longas conversas sobre tecnologia se mostraram muito úteis quando comecei a trabalhar para a NATIONAL GEOGRAPHIC. Na minha primeira pauta fui ao lago Ontário documentar um experimento, chamado projeto Sublimnos, que tratava de um hábitat submarino ártico para seres humanos. Logo estava fotografando as mais diversas criaturas, como tubarões, crustáceos e nudibrânquios, permitindo-me mergulhar fundo em paisagens marinhas que pareciam estranhas mas eram de uma beleza excepcional. A primeira vez que me dei conta do esplendor poético dos oceanos foi ao fotografar um campo de enguias-de-jardim. Meu sonho era um novo tipo de imagem que capturasse o delicado balanço dessas enguias, sem qualquer perturbação em seu ambiente. Com muito esforço da equipe, conseguimos isso na costade Eilat, em Israel, com uma câmera oculta na areia controlada a distância e acionada por um cabo comprido que ia até um esconderijo subaquático. Quando a foto foi revelada, sabia que tínhamos afinal um artigo – e também que a fotografia submarina era a minha vocação.
Quanto mais eu mergulhava, mais eu descobria mundos sobre osquais a humanidade pouco sabia e quase nada entendia. A grande “história” da década de 1970 relacionada ao mar foi o filme Tubarão, claro, e a NATIONAL GEOGRAPHICme enviou em uma viagem ao redor do planeta para fazer uma cobertura mais verdadeira sobre esses animais. Ao lado da doutora Eugenie Clark, observei o universo dos tubarões por um ano e meio, desde a costa do Japão, passando pelo mar Vermelho, até a Austrália. Com a ajuda de vários especialistas, ajudamos a demolir diversos mitos sobre esses animais tão estigmatizados.
Fazer fotos em um ambiente submarino é semelhante a fotografar acidade de Nova York envolta em densa neblina com apenas 50 metros de visibilidade. Além disso, a gente não alcança o nível das ruas, pois só se consegue fotografar de uma altitude de 20 andares e, dependendo das marés e de outros fatores, às vezes temos apenas 15 ou 20 minutos por dia para trabalhar. Também não conseguimos conversar com ninguém, pois não falamos sua língua, e todos se afastam rapidamente, tornando ainda mais difícil obter a imagem de um rosto.
Minha carreira como fotógrafo foi a descoberta de que o mundo sob aquele cais no lago Augur se estende por todo o planeta. Embora agente imagine o mar como um ambiente extraterreno, a maior parte do globo – e grande parte de sua fauna – está, na verdade, sob a superfície da água. Conhecemos tão pouco esse universo oceânico que cada mergulho traz descobertas surpreendentes. Não há como negar que vivemos a Era da Exploração Submarina. Os oceanos, porém, estão sofrendo com a acidificação, a pesca excessiva, a poluição e o aumento na temperatura das águas. A química do planeta está mudando, e os recifes de coral já foram irremediavelmente danificados. Espero que minhas imagens ajudem os leitores a ver o oceano não como uma fronteira remota, mas sim como parte vital do planeta, que deve ser valorizada e preservada para as próximas gerações.
Foto: David Doubilet
À luz do crepúsculo, no estreito Dampier, na Indonésia, uma lente parcialmente submersa capta a vida humana acima e as águas abaixo faiscando de peixinhos

Foto: David Doubilet

As assustadoras mandíbulas do tubarão-branco ao largo da costa da África do Sul camuflam a fragilidade da espécie, ameaçada por redes simples e de arrasto e pela pesca clandestina. Durante mais de um ano, o fotógrafo viajou com especialistas para observar esses animais tão estigmatizados em seus diversos hábitats oceânicos. Nunca antes os leitores puderam vê-los de tão perto como nas imagens deste trabalho

Foto: David Doubilet

Com esta foto assustadora de uma mandíbula escancarada, David Doubilet captou uma imagem digna de pesadelo. Na realidade, porém, geralmente os tubarões-brancos se afastam depois de morder seres  humanos

Foto: David Doubilet

Em North Sound, nas ilhas Cayman, os ritmos da raia-lixa e do veleiro coincidem por um instante neste estudo da vida acima e abaixo das ondas. O fotógrafo retratou as raias, com suas asas amplas e seus movimentos graciosos, como criaturas quase mitológicas, meio aves, meio peixes

Foto: David Doubilet

David Doubilet acompanhou bandos de focas e leões-marinhos através de hábitats em acelerada mutação a fim de registrar os efeitos das alterações ambientais. Nas Galápagos, o filhote de leão-marinho estava esfomeado ao arremeter contra um cardume de salesmas-listrados perto de Cousin's Rock. Os peixes formam um círculo defensivo, tentando confundir o predador faminto

Foto: David Doubilet

Desde o leito de vegetação perto da ilha Little Hopkins, no sul da Austrália, estes leões-marinhos aproximaram-se do fotógrafo, fazendo cócegas em suas mãos com os bigodes. Antes intensamente caçado, o leão-marinho-australiano agora é uma espécie protegida

Foto: David Doubilet

Uma galáxia de tartarugas depende da Grande Barreira de Corais da Austrália como local de procriação. Em 1981, a Unesco incluiu esse reino do coral como patrimônio da humanidade. David Doubilet reconheceu um padrão de vida nesta tomada aérea, similar ao de uma amostra de água com plâncton vista em um microscópio. "São como marinheiros antigos", diz, admirado, "cruzando o mar de um lado para o outro sem parar"

Foto: David Doubilet
A luta das tartarugas para sobreviver levou David Doubilet a mundos exóticos desde o atol Marutea, na Polinésia Francesa

Foto: David Doubilet

Um caranguejo-porcelana poderia ser colocado sobre uma unha. Ele se confunde com as estrias de um coral mole, formadas do carbonato de cálcio que adere ao corpo impregnado de água do coral

Foto: David Doubilet

No estreito de Lombok, em Bali, um galateoide rosado, do tamanho de uma moeda pequena, corre sobre uma colônia de enormes esponjas-barril Xestospongia a 40 metros de profundidade

Foto: David Doubilet

Contra um fundo de anêmonas-do-mar, um polvo gigante projeta-se esguichando água pelos oito tentáculos dotados de ventosas. Adaptado tanto às gélidas águas canadenses dos estreitos da Geórgia como àquelas mais quentes ao sul, os polvos também proliferam em todo o Pacífico Norte. Há registro de espécimes pesando até 70 quilos

Foto: David Doubilet

O corpo rígido e a pele grossa do Halgerda batangas protegem o animal da atenção indesejada. Os predadores aprendem que este devorador de esponjas emite uma toxina poderosa

Foto: David Doubilet

Águas-vivas Mastigias flutuam suavemente, mas não ao léu, em uma laguna do Palau. As lagoas desse arquipélago no Pacífico apresentam três formas distintas de Mastigias, cada qual evoluindo de maneira isolada. Por motivos desconhecidos, as águas-vivas migram de uma margem a outra dos lagos duas vezes por dia.

Foto: David Doubilet

Recolhendo-se à noite entre tentáculos pungentes de uma anêmona-do-mar, estes espécimes de Amphiprion chrysopterus de Papua-Nova Guiné encontram refúgio contra predadores como as garoupas. Das cerca de mil espécies de anêmonas-do-mar, apenas uma dezena abriga peixes-palhaço – ainda não se sabe como eles evitam ser atacados por seus hospedeiros

Foto: David Doubilet

Branqueada devido ao aumento da temperatura da água, esta anêmona-do-mar Entacmaea quadricolor é em grande parte desprovida das algas que lhe conferem cor, assim como da energia da fotossíntese

Foto: David Doubilet

Um peixe-palhaço Amphiprion frenatus macho cuida de seus ovos em desenvolvimento como um jardineiro. O pai preocupado oxigena os ovos ventilando-os com as nadadeiras peitorais ao mesmo tempo em que elimina os embriões mortos

Foto: David Doubilet

Sob a imponente massa do monte Fuji, a baía mais profunda do Japão mergulha em abismos oceânicos. Uma perspectiva bifocal capta o robô SeaROVER em águas que, embora frequentadas há milhares de anos por pescadores, ainda são pouco conhecidas. A viagem do fotógrafo à baía Surunga resultou em abundantes imagens de, entre outros, peixes-cardeal, Anthias, peixes-escorpião, enguias-do-mar e caranguejos gigantes

Foto: National Geographic Brasil

Fotógrafo David Doubilet

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...