sábado, 5 de enero de 2013

João Marcos Rosa: instantes vertiginosos da natureza


Discípulo de Araquém Alcântara, o fotógrafo mineiro de National Geographic superou o medo de altura para registrar harpias a quase 40 metros acima do solo



por Marcela Puccia Braz 

João Marcos Rosa desligou a câmera e ficou meia hora em transe. Mesmo sem olhar no visor, teve certeza de que a foto estava lá, a imagem que buscava registrar desde quando começou a documentar harpias há oito anos: um adulto levando, nas enormes garras, um tatu-peba para o filhote comer.

Também chamada de gavião-real, a harpia (Harpya harpyja) é a maior ave de rapina das Américas. Ela é difícil de ser fotografada, apesar de seus 2,5 metros de envergadura e até 1,2 metro de altura. Foi só com alguns anos de experiência que o fotógrafo mineiro de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL conseguiu capturar esta cena específica do imponente animal, que se camufla muito bem e vive no alto das árvores, o que exigiu de Rosa ficar de 20 a 40 metros acima do solo para registrá-lo.

Mas para entender a importância deste momento é preciso voltar a 2004, ano “divisor de águas” na fotografia de João, quando o jornalista formado se inscreveu para fazer o Curso Abril de Fotografia. Na época, quem analisava os portfólios dos fotógrafos inscritos era Ricardo Correa, então editor de foto das revistas semanais da Editora Abril. “Ele meteu o pau nas minhas fotos. Saí de lá mal, porque meu sonho era fotografar para National. Mas, depois, ele me chamou”, lembra Rosa, que, como se sabe, acabou se tornando um dos fotógrafos da edição brasileira e um dos colaboradores do site.

Então o desafio foi o de abrir uma porta para entrar na revista. João havia conhecido o editor Ronaldo Ribeiro por meio de Araquém Alcântara, um dos mais importantes fotógrafos de natureza do país, com quem trabalhou durante um ano como assistente. Mas o contato com Ribeiro não era suficiente. “Eu precisava ir com alguma história que tivesse a cara da revista e aproveitei essa oportunidade para mostrar o trabalho que fiz sobre bioluminescência no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Ninguém tinha conseguido fazer uma foto legal e eu fui lá e fiz.”

A reportagem, publicada em março de 2004, foi comprada pelas edições alemã e americana. “Vi que estava no caminho certo e entrei de cabeça”, conta. Foi quando, em busca da próxima pauta, ele conheceu o “cara das harpias”, o biólogo Benjamin da Luz, que estava terminando o mestrado em arquitetura de ninho de harpias. Encontrar Benjamin foi o marco que deu rumo ao registro da ave na carreira do fotógrafo de 33 anos.

A partir daí, um ano de produção junto ao Programa de Conservação do Gavião-Real (PCGR), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), rendeu a reportagem A rainha das selvas, nas páginas de fevereiro de 2006 de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL.

Leia mais

Foto: João Marcos Rosa

Em florestas alagadas, os igarapés formam os caminhos que levam aos ninhos. Nesse ambiente, as canoas são o único meio de transporte viável

Foto: João Marcos Rosa

 Onça-pintada espreita o barco do fotógrafo no fim do dia às margens do rio Três Irmãos

Foto: João Marcos Rosa

Um ipê-roxo floresce solitário na imensidão da Floresta Nacional de Carajás

Foto: João Marcos Rosa

Seu Rosino, 83 anos, rema para recolher suas redes no lago. Ele é um dos mais antigos membros da comunidade remascente de quilombolas do Curiaú

Foto: João Marcos Rosa

Curiosa, uma ariranha faz uma visita surpresa para o barco do fotógrafo

Foto: João Marcos Rosa

Ossos de presas são coletados pelos pesquisadores nos ninhos e no entorno das respectivas árvores. A análise dessas amostras é essencial para identificar as presas das harpias

Foto: João Marcos Rosa

 Harpia carrega um tatu-peba recém-caçado

Foto: João Marcos Rosa

Populações tradicionais conservam lendas sobre a captura de crianças por harpias, uma das principais razões para o abate dessas aves

Foto: João Marcos Rosa

Comunidade cigana no bairro São Gabriel em Belo Horizonte

Foto: João Marcos Rosa

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Foto: João Marcos Rosa

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Foto: João Marcos Rosa

Larvas de vaga-lumes que ocupam cavidades de um cupinzeiro saem à superfície em busca de alimento e iluminam a noite do Cerrado

Foto: João Marcos Rosa

O sapo flamenguinho, espécie endêmica de Itatiaia (RJ), foi escolhido como símbolo da comemoração dos 70 anos do primeiro parque nacional do Brasil

Foto: João Marcos Rosa

Araçaris se exibem em um tronco seco na Serra das Araras

Foto: João Marcos Rosa

 Um tamanduá carrega seu filhote crescido nos campos do Parque Nacional da Serra da Canastra

Foto: João Marcos Rosa

Jacaré desliza sobre as águas do rio Pixaim no fim do dia na rodovia Transpantaneira

Foto: João Marcos Rosa

O biólogo Breno Damasceno manuseia uma jararaca-ilhoa encontrada a poucos metros do acampamento da equipe na ilha da Queimada Grande

Foto: João Marcos Rosa

 Jararaca-ilhoa nas encostas da ilha da Queimada Grande

Foto: João Marcos Rosa

Araracanga voando para seu ninho construído em uma castanheira morta

Foto: Marcus Canuto

O fotógrafo João Marcos Rosa, na plataforma em que passou mais de 700 horas documentando um ninho de harpia
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