domingo, 20 de enero de 2013

Cavernas do céu no Nepal

As cavernas em penhascos no antigo reino de Mustang revelam seus segredos

por Michael Finkel 
 
 
O crânio, um crânio humano, está em cima de um penedo desmoronadiço no remoto norte do distrito de Mustang, no Nepal. Pete Athans, chefe de uma equipe interdisciplinar de montanhistas e arqueólogos, ajusta as alças de seu equipamento e se prende a uma corda. Escala o penedo de 6 metros enquanto outro montanhista, Ted Hesser, sustenta a corda fazendo a segurança.
Ele se aproxima do crânio, calça luvas azuis de látex para impedir que seu DNA contamine o achado e o remove aos poucos dos detritos. Athans é quase certamente a primeira pessoa a segurar esse crânio em 1.500 anos. Terra sai das cavidades oculares. Ele guarda o crânio em um saco vermelho acolchoado e o manda para os três cientistas à espera lá embaixo: Mark Aldenderfer, da Universidade da Califórnia em Merced; Jacqueline Eng, da Western Michigan University; e Mohan Singh Lama, do Departamento de Arqueologia do Nepal.
Aldenderfer se empolga especialmente com a presença de dois molares. Dentes podem dar pistas sobre a alimentação, a saúde e o local aproximado do nascimento de uma pessoa. Eng, que é bioarqueóloga, logo determina que o crânio provavelmente pertenceu a um homem jovem. Ela nota três fraturas curadas no crânio e uma na mandíbula direita. “Sinais de violência”, ela aventa. “Ou seria um coice de cavalo?”
Ainda mais intrigante do que o crânio é o lugar de onde ele caiu. O penedo que Athans escalou fica bem embaixo de um penhasco de rocha parda com veios brancos e rosados. Perto do topo da escarpa há várias cavernas pequenas, laboriosamente escavadas à mão na pedra quebradiça. A erosão causou o desmoronamento parcial da face do penhasco e desalojou o crânio. Agora a mesma questão fermenta na cabeça de todos: se um crânio caiu, o que mais haverá lá em cima?


Foto: Cory Richards

Montanhistas e cientistas seguem por uma trilha acima do rio Kali Gandaki na remota região nepalesa de Mustang. A mais de 18 metros para o alto estão renques de cavernas inexploradas, feitas pelo homem séculos atrás. Pode haver milhares delas na região

Foto: Cory Richards

 Ted Hesser passa pela entrada de uma caverna em sua escalada

Foto: Cory Richards

 Para chegar a uma série de cavernas escavadas em um penhasco 47 metros acima do fundo do vale, Matt Segal escala uma rocha tão frágil que se desintegra ao contato. Ligadas por uma saliência na rocha, as cavernas de 800 anos, hoje vazias, podem ter guardado manuscritos no passado.

Foto: Cory Richards

Matt Segal sopra o pó de um fragmento de manuscrito encontrado em um conjunto de documentos. A maioria das páginas é do século 15 e trata de assuntos sagrados e mundanos, como a doutrina budista tibetana e questões legais.

Foto: Cory Richards

Na capela privada de uma casa na cidade de Lo Manthang, um lama do budismo tibetano executa um rito com pratos, tambor e incenso. Outrora parte de um Tibete maior, Mustang continua imerso na cultura tibetana

Foto: Cory Richards

Um lama segura um mala, ou rosário tibetano, usado para contar as rezas e os mantras em um ritual para prever o futuro. Ele segue a religião de Bon, anterior ao budismo no antigo Tibete e ainda é praticada em algumas áreas do reino de Mustang

Foto: Cory Richards

Tsewang Tashi, um lama do budismo tibetano, conduz seu cavalo pelo vilarejo de Samdzong, próximo à fronteira chinesa. Durante uma era turbulenta há 800 anos, os habitantes se refugiaram em cavernas. Voltaram para o vilarejo após gerações, quando a região se estabilizou. “Um bom lugar para se viver, para quem teme os vizinhos, são as cavernas”, diz o arqueólogo Mark Aldenderfer

Foto: Cory Richards

Yandu Bista, 53 anos, aquece-se em uma fogueira em uma câmara de uma caverna que já foi seu lar no vilarejo de Garphu, do norte do reino de Mustang. Nascida nesta caverna, Bista também deu à luz uma filha, há 11 anos, e depois foi morar com a família na cidade. “Gosto mais de morar na caverna”, ela diz. “No inverno, era quente e gostoso. Mas era difícil trazer água até aqui. Lenha para o fogo, também.” Em Garphu, muita gente usou as cavernas existentes como base para sua moradia", diz o arqueólogo Mark Aldenderfer. “Já existem vários cômodos. Na verdade, não é necessário construir uma casa nova, apenas erguer uma fachada na frente.”

Foto: Cory Richards

Ted Hesser entra num labirinto de cômodos em uma caverna perto de Chuksang. Originalmente usadas como câmaras funerárias, essas cavernas se transformaram em moradias há cerca de mil anos. Finalmente, no século 15, a maioria das pessoas já residia em vilarejos tradicionais

Foto: Cory Richards

Transceptor portátil numa mão e maxila humana na outra, o chefe da expedição Pete Athans vasculha uma caverna mortuária saqueada enquanto Matt Segal investiga uma cova onde os ladrões descartaram ossos. Os cientistas esperam que o DNA dos dentes ajude a determinar as origens dos corpos

Foto: Cory Richards

Pequenas contas de vidro colorido foram presas a um capuz de pano amarrado na máscara mortuária de ouro e prata encontrada na Tumba 5 de Samdzong. Apesar de os arqueólogos não terem notícia da tradição de confecção de contas no reino de Mustang, mais de mil contas, datadas de 300 a 700 d.C., foram encontradas aqui. Elas são originárias de áreas que incluem o atual Paquistão, o Irã e o sul da Índia, “e certamente foram levadas para a região pelo comércio”, diz Aldenderfer. “Não sabemos, é claro, pelo que foram trocadas.”

Foto: Cory Richards

Uma máscara da morte, de 1.500 anos e feita de ouro e prata, cobria o rosto de um homem adulto encontrado em um caixão dentro de uma caverna de Samdzong, chamada de Tumba 5 por pesquisadores. Centenas de anos atrás, nessa região, máscaras eram comumente colocadas nos membros mortos da elite

Foto: Cory Richards

As adagas de ferro com cabo curvado de madeira foram encontradas em uma cripta funerária próxima ao vilarejo de Samdzong. Variando de 20 a 28 centímetros de comprimento, provavelmente eram usadas para defesa pessoal

Foto: Cory Richards

Um bebê e o pé de uma mulher estavam entre os restos mortais que se mumificaram naturalmente. Foram 30 corpos humanos que arqueólogos alemães e nepaleses descobriram em 1995, em uma caverna mortuária num penhasco no sítio de Mebrak, em Mustang

Foto: Cory Richards

Jacqueline Eng, bioarqueóloga, examina ossos humanos e animais de 1.500 anos encontrados em cavernas mortuárias, observada por um morador de Samdzong. Cortes superficiais em muitos ossos humanos sugerem a remoção ritual da carne

Foto: Cory Richards

Murais nas paredes da caverna de Ritseling, no Alto Mustang, retratam uma figura de Buda, à direita, e seguidores. O tempo e a exposição ao clima fizeram com que as pinturas se erodissem – elas datam de cerca de 800 anos atrás

Foto: Cory Richards

Cai a noite sobre os templos e casas de Tsarang, outrora a mais importante cidade da região. Em Mustang, onde os séculos não destruíram o ritmo da vida tradicional, as cavernas permitem vislumbres do tempo em que o remoto reino himalaio foi um centro que ligava o Tibete ao resto do mundo
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